
Tentaram enterrá-la, mas não sabiam que ela era semente. Há 8 anos, em Março de 2018, Marielle foi brutalmente assassinada no Rio. Os integrantes do coletivo artvista Fritos da Terra resolveram mudar o endereço d’A Casa de Vidro – foda-se a Av. New York, agora a gente mora é na Rua Marielle Franco! Em ensaio preparatório pro show de lançamento da música de trabalho “Bora Marcar” (evento que vai rolar em 30 de Abril, n’A Casa de Vidro), Fritos resolveu honrar a memória desta icônica mulher brasileira que foi interrompida em sua trajetória naquele ano em que todos os demônios saíram do inferno. Em hordas de trolls, elegeram Bolsonaro e Mourão enquanto Lula estava no cárcere, no rescaldo do golpe de Estado contra Dilma. Atualmente estou lendo um belíssimo livro de Vinciane Despret, “Um Brinde Aos Mortos”, e a partir dele pensando meios de honrar os que partiram, muito além do “trabalho do luto” Freudiano, que parece pregar uma desvinculação da libido em relação ao objeto perdido. Com Marielle, seguimos vinculados. Do luto à luta.
Na ocasião, o vocalista e multi-instrumentista Leonardo Vergara concedeu uma entrevista ao guitarrista e letrista Eduardo Carli sobre o legado ressonante de Marielle registrado na íntegra neste vídeo. Confira a transcrição de uma parte do papo:
CARLI: Acabamos de colar aqui, na frente do ponto de cultura esta placa, mudamos a Casa de Vidro da Av. New York para a Rua Marielle Franco. Estamos aqui em março de 2026. E oito anos atrás, essa mulher negra, LGBTQIA+, periférica, militante dos direitos humanos, vereadora do PSOL, foi covardemente assassinada no Rio de Janeiro. Como você faz para acessar um pouco a Marielle também? Quando você canta, quando você toca e quando você se joga no artivismo?
VERGARA: Cara, o que eu acesso quando eu penso em Marielle Franco é uma pessoa que conseguia conectar uma força muito grande, a ligação com as pessoas, a conexão com as pessoas: ela tinha um uma intenção com a palavra que conseguia fazer um magnetismo muito forte, e as pessoas às vezes de repente se reconheciam ali, né? Tinha ali um projeto muito, muito, muito forte de representatividade, muito transgressora, com muita adesão que estava se formando em volta dela. Então, acho que o que fica muito forte pra mim, com todas as representatividades que ela expressava com a vivência dela, é que ela impacta com essa disposição integral para realmente viver. Não é só uma militante muito comprometida. Ela era uma pessoa mesmo entregue para esse processo de construir a sociedade mesmo. Pessoa histórica.
CARLI: Mas deixa eu voltar a uma palavra que você disse que eu acho muito massa, que você falou do magnetismo, né? Ela magnetizou uma galera e o que eu acho que é fascinante também, tipo, ela morreu faz oito anos e ela continua presente, hoje e sempre, ou seja, há um modo de honrar os mortos, a gente mantém essa chama viva, sabe? E aí tem algo que também, na época que a Marielle morreu, foi uma frase que ficou na minha mente para sempre, assim, eles falaram: tentaram enterrá-la, mas não sabiam que ela era uma semente. Isso é muito impressionante, quando uma pessoa tem um magnetismo, que mesmo não estando presente, ela ressoa.
VERGARA: Pois é, cara, e assim, essa assumência da “Marielle presente!” para todos os lugares que a gente ecoa, que a gente escuta ecoando essa afirmação, eu sinto essa potência e aí é onde eu penso: interromperam um puta projeto, né? Não mataram só uma pessoa que estava trazendo à tona histórias de milícias e não sei lá o que. De verdade, essa pessoa incomodou muito, porque ela estava construindo uma base com muita representatividade, ousando e estando muito à frente. Enfim, “Marielle presente!” é de fato a confirmação da pessoa histórica que era ela e que ainda é ela. E se ela estivesse viva?… A gente tem que assumir mesmo esse compromisso de aproveitar nossa vida nas coisas que a gente acredita e a gente não se colocar pela metade nisso. Nesses lugares a gente tem que estar inteiro, entregue, com muita conexão e deixando a coisa realmente fluir e fazer acontecer nesse sentido. Acho que pra mim é o legado mesmo, né? Que eu sinto quando a gente afirma que Marielle está presente, é convocando todo mundo pra dizer: vamos fazer, vamos fazer mesmo, então “Marielle presente!” na Casa de Vidro!…
CARLI: Olha, só pra terminar, também no Fritos da Terra, algumas vezes a gente tocando junto, já várias ocasiões e vários palcos por aí, né, Léo? E às vezes você também evoca, assim, com muita força a figura da Marielle. Então, pra ti, como artista, como vocalista, mas também como alguém que tá nesse processo do ativismo diante de um público ali que você quer inflamar, né? Como que é acessar esse ícone, assim, sabe? No Fritos da Terra.
VERGARA: Então, cara, esse chamado, esse grito de chamado que… na militância do Sistema Único de Saúde, que é a minha, a que eu vivi, eu aprendi isso. E aprendi isso também vendo como a militância presentifica as pessoas que têm que ser presentificadas, para convocar elas como forças, como entidades, para a gente incorporar aquela energia e trazer isso para cima, para a dona. Então, nos shows, eu penso mesmo ali como um lugar de manifesto e de uma parceria para expressar isso como uma manifestação de rua. Então, vem à tona algumas pessoas. E a Marielle aparece ali também convocando toda essa força dessa mulher preta, dessa mulher que conseguiu se colocar tão intensamente nas coisas que a gente quer a energia dela ali, junto. Junto ali para realmente ajudar a expressar isso. Então, o que eu sinto é uma explosão de muita conexão com a mensagem. Quando traz à tona a figura da Marielle e “Marielle presente!” , vem essa intenção com a palavra, vamos usar essa expressão para conectar e para expandir. Então é o que eu sinto quando a gente convoca a presença dela no show.
CARLI: Massa demais. Marielle convocada aí pra caminhar junto com os Fritos na Terra e com a Casa de Vidro!
VERGARA: “Marielle presente!”
CARLI: Então vamos entrar lá e vamos ouvir esses batuques aí que Julião também está honrando aí com a batucada.

Publicado em: 29/03/26
De autoria: Eduardo Carli de Moraes educarlidemoraes
A Casa de Vidro Ponto de Cultura e Centro de Mídia